A História dos Papas

De acordo com os Evangelhos, a história do Papado começa quando Cristo, diante do colégio apostólico, disse a São Pedro: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha igreja...” (S. Mateus, 15:18). Tornava-se Pedro o primeiro Papa da Igreja. De 189 a 199, período em que o Papa foi São Vítor I, o latim foi adotado como língua oficial da Igreja, ao lado do grego. E houve o estabelecimento de uma relação mais íntima entre as ações do bispo de Roma e o restante da cristandade.

O período medieval do Papado inaugura-se com Gregório I, Papa entre 590 e 604, o qual promove a “romanização” da Europa, no sentido religioso. No século VII, após um declínio do prestígio papal, o Papa Leão III coroa a Carlos Magno como “imperador dos romanos”, estabilizando novamente a situação. Também neste período da Idade Média, outras crises em relação à forma de eleição do Papa abalam o Papado. Porém em 1059, a situação é corrigida por um decreto de Nicolau II, reservando aos cardeais o direito de eleição do Papa. Também o rompimento do primado da Igreja de Roma sobre o Império do Oriente acontece neste período, como conseqüência do Cisma do Oriente. Porém, já no século XII, o Papado surge como autêntica potência religiosa, moral e política.

Com Inocêncio III, Papa entre 1198 e 1216, o Papado atinge sua mais alta expressão medieval. Dotado de grande poder intelectual e rara capacidade de trabalho, virtudes a que aliava invejável talento literário e lúcida visão de estadista, Inocêncio conferiu a seu pontificado um sentido de humanismo religioso. Após este Papa, o Sacro Império entra num período de grandes realizações. No século XIII, o Papado formula numerosos princípios políticos e morais, que se tornaram parte da atual legislatura internacional, como a proteção e legações de salvo-condutos para embaixadores; respeito à santidade dos tratados eclesiásticos; tratamento humano para prisioneiros de guerra; proteção a exilados etc.

Conflitos com a França acabam levando à invasão francesa na Itália e o Papa Bonifácio VIII é preso, vindo a falecer, em 1303. Inaugura-se aí um novo período. Sob a influência francesa, é eleito Bento XI, ainda em 1303, que vem a morrer no ano seguinte. Seu sucessor, Clemente V, sentindo-se ameaçado em Roma, transfere a Santa Sé para Avignon, na França, em 1309. É o chamado “Cativeiro da Babilônia”, que se estende até 1378. Os maiores pontífices de Avignon foram João XXII, reformador, sob vários aspectos, da vida intelectual e política da Europa; e Clemente VI, protótipo do Papa renascentista. E com Urbano V e Gregório XI, 1362 a 1378, inicia-se o movimento de retorno a Roma.

Renascença e reforma. Este período é marcado pelo luxo e a beleza artística. Grandes patronos das artes e das letras, os papas renascentistas, sobretudo Júlio II, Leão X e Paulo III, valeram-se dos serviços de Michelangelo, Rafael Sanzio e muitos outros, fundando ainda, em Roma e em outras cidades, diversas universidades e sociedades culturais. É neste período, também, que o sacerdote Martinho Lutero levanta-se contra o catolicismo e rompe definitivamente a cristandade ocidental. Este perigo da reforma protestante, determina a realização de um Concílio Geral da Igreja Católica, na cidade de Trento, no Tirol, entre 1545 e 1563. O Concílio definiu os dogmas e as verdades da Fé, negadas pelos protestantes, e adotou decretos disciplinares, a fim de corrigir abusos que haviam se introduzido na sociedade cristã. Estabeleceram a autenticidade dos livros sagrados, a autoridade da tradição católica, o casamento indissolúvel e a supremacia do Papa. Com base nas decisões do Concílio de Trento, tem início a Reforma Católica, ou Contra-Reforma, 1566 a 1605.

Em 1675 é eleito Inocêncio XI, célebre pela sua santidade e visão de estadista. De família rica, impôs à administração papal um regime de severa austeridade, abolindo o excesso de ostentação e acumulando vasta soma em dinheiro para usufruto da comunidade cristã. Afirmava a necessidade da tolerância católica para com o protestantismo, visando a paz num âmbito geral.

No início do século XIX, Napoleão Bonaparte, primeiro cônsul da República Francesa, resolve reconsiderar sua atitude hostil ao Papado, celebrando com Pio VII a concordata de 1801, pela qual o Sacro Império recuperou parte de seus domínios. Três anos depois, Pio VII assiste à coroação de Napoleão Imperador da França. Napoleão, ao encontrar resistência quanto à colaboração do Papa e da Igreja, encarcera Pio VII, no Castelo de Fontainebleau, em 1809. Deposto o imperador em 1815, o Papado recupera a maior parte de suas possessões e começa a reorganizar suas desagregadas ordens, uma delas a Companhia de Jesus.

Com a subida, ao trono pontifício, de Leão XII, em 1823, a Igreja consolida-se no sentido de adaptar-se às modernas condições políticas, intelectuais e sociais. Neste período, restauram-se duas importantes ordens, a dos Beneditinos e a dos Dominicanos. Com Pio IX, o campo doutrinário recebe dois importantes dogmas, o da Imaculada Conceição e da Virgem, em 1854, e o da Infalibilidade papal, em 1870.

O prestígio internacional do Papa é novamente fortalecido com Leão XIII, 1878 a 1903. Este Papa surge como criador de um novo período na História da Igreja Católica. Lucidez, visão política revolucionária e integridade espiritual fazem dele talvez o maior pontífice católico de todos os tempos, quer no sentido doutrinário, quer no social. De suas encíclicas, que deram origem às modernas diretrizes papais, destacam-se a Aeterni Patris (1879), onde revê os fundamentos do Tomismo e procura conciliar o pensamento cristão com o progresso científico; a Immortale Dei (1885) e a Libertas (1888), nas quais reconhece a necessidade de reformular as antigas instituições cristãs e recomenda à Igreja e ao Estado que procurem viver em paz e harmonia dentro do regime democrático; e finalmente, a Rerum Novarum (1891), onde traça os novos rumos sociais da Igreja, em defesa do proletariado.

O século XX começa com sucessão de Leão XIII por Pio X, de espírito diverso, grande reformador, que promove a codificação das leis canônicas. O Papa Pio XI, de 1922 a 1939, desenvolve grandes esforços no sentido de integrar a Igreja no complexo contexto social criado pelo pós-guerra. De espírito humanista, lutou pela conservação dos tesouros científicos e artísticos do Vaticano, fundou o Instituto Pontifício de Arqueologia Cristã, em 1925, e em 1938 assumiu a direção da Congregação para Seminários e Universidades, imprimindo-lhe rápido e vigoroso desenvolvimento. Porém, o principal acontecimento de sua gestão, e um dos mais importantes da História do Papado, foi a assinatura do Tratado de Latrão (1929), entre o estado fascista de Mussolini e a Igreja Católica. Neste tratado, o Papa reconhecia o Reino da Itália, bem como sua capital, Roma; em contrapartida, a Itália aceitava a soberania papal sobre um diminuto território de 44 hectares - a cidade do Vaticano.

Na seqüência, o Papado é tomado por Pio XII, cujo início coincide com a declaração da II Guerra Mundial. Pelas mudanças já ocorridas nas relações do Papado com o resto do mundo, este Papa procurou logo definir a posição da Igreja diante do conflito, condenando violentamente a guerra total. Pio XII pregou sobretudo o respeito às pequenas minorias e à liberdade individual e combateu correntes filosóficas materialistas, principalmente o marxismo.

Como é eleito um Papa

A princípio, a escolha do Papa era feita pelo povo de Roma e depois ratificada pelo clero romano. No caminho do Papado, tal instituição também sofreu abalos, e no século IX, Oto, o Grande, da Alemanha, decidira modificar as normas, submetendo a escolha do Papa ao seu arbítrio. E em 1059, Nicolau II resolve a situação com um decreto que reservava aos cardeais o direito da eleição do Papa. Em 1112, a Concordata de Worms resolve novamente a respeito da investidura do Papa, determinando que os bispos seriam eleitos pelo clero e pelo povo e que o rei renunciaria à investidura pelo báculo e pelo anel.

Curiosidades

O nome Papa foi dado originalmente a todos os bispos da Igreja Católica. Aos poucos, foi reservado ao bispo de Roma, que é também patriarca do Ocidente e primaz da Itália. O Papa é o chefe da Igreja Católica. É também soberano temporal: seu domínio é o Vaticano. Nessa qualidade, tem, junto a si, um corpo diplomático. Sua veste habitual é a sataina branca. Entre os ornamentos que lhe são reservados, há a tiara e o anel chamado do Pescador (que é São Pedro). Seu principal colaborador é o secretário de Estado.

Das organizações do tempo de Império Romano, o Papado é a única que se manteve até hoje.