A Eucaristia

A Eucaristia

Existem na revelação escrita, ou seja na Bíblia, afirmações categóricas de Jesus. Estas afirmações de Jesus não admitem outras alternativas. Seguem alguns exemplos:

1 - Mt 7,13-14

Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçosa a via que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Mas quão estreita é a porta e apertada a via que leva à vida, e poucos são os que dão com ela.

Se Jesus tivesse falado somente que muitos entram pelo caminho da perdição, poderíamos entender que MUITOS significa um número grande, não necessariamente uma porcentagem alta. Dez por cento (10%) da humanidade de todos os tempos é um número muito grande, mas é uma porcentagem baixa em termos globais. Mas Jesus fala em seguida (v 14) POUCOS entram no caminho da salvação. Num mesmo volume, no caso a humanidade de todos os tempos, não podemos tomar a palavra MUITOS como 10% e a palavra POUCOS como 90%. Com esta afirmação MUITOS tomam o caminho da perdição (v 13) e POUCOS tomam o caminho da salvação (v 14), Jesus nos força a entender que o número dos que entram pelo caminho da perdição é maior do que o número dos que entram pelo caminho da salvação.

2 - Jo 20,22-23

Dito isto soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo; àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ficar-lhes-ão retidos.

Se Jesus tivesse dito somente "àqueles a quem perdoardes os pecados, ficar-lhes-ão perdoados" poderíamos dizer que esta é uma alternativa para se obter o perdão dos pecados, mas que poderia haver outras. Como, porém, Jesus acrescenta "àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos", exclui a possibilidade de haver outras alternativas para se obter o perdão dos pecados.

3 - Jo 6,53-54

Jesus disse-lhes: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia.

Se Jesus tivesse dito somente "quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna"(v 54), poderíamos dizer que este é um meio para se obter a vida eterna, mas que poderia haver outros. Através do v 53, porém, Jesus exclui a existência de outras alternativas. Portanto, segundo Jesus (Jo 6,53-54), quem nega e não recebe a Eucaristia não terá a vida eterna. Quem quiser recuperar a vida eterna perdida, desde Adão, pelo pecado deve crer e receber dignamente a Eucaristia. Alguém poderá perguntar: e as crianças que morrem pequenas, antes de receber a Eucaristia, e as que são exterminadas

pelo aborto antes de nascer? As crianças que morrem pequenas ou antes de nascer não negaram nem recusaram a Eucaristia, porque a Eucaristia nunca lhes foi apresentada. As pessoas adultas que negam a Eucaristia, as que acreditam na Eucaristia mas não a recebem ou a recebem indignamente estão em situação diferente.

Apresentei três exemplos de afirmações categóricas de Jesus. Somente o terceiro exemplo está diretamente relacionado com o tema a ser tratado - a EUCARISTIA. Por isto, agora vamos nos estender de forma mais detalhada sobre este assunto.

A Bíblia não foi escrita para ser interpretada, mas para ser compreendida. No Evangelho de Mateus Jesus nos diz: "Quando alguém ouve a palavra do reino, mas não a entende, vem o maligno e arrebata o que foi semeado em seu coração. Este é o simbolizado na semente caída ao longo do caminho"(Mt 13,19). Segundo nos diz Jesus, neste versículo, não basta ler a Bíblia, é preciso entendê-la. Porque satanás tira a semente do coração de quem lê

sem entender. Satanás não avisa o leitor da Bíblia que a semente foi tirada do seu coração; assim o leitor permanece na ilusão de possuir a verdade, enquanto ela lhe foi tirada. "A semente que caiu em boa terra indica aquele que ouve a palavra e a entende; por isso, dá fruto, produzindo, ora cem, ora sessenta, ora trinta por um"(Mt 13,23). Ser boa terra para a semente significa ler e entender. Somente quem lê e entende produz fruto.

Vamos, portanto, fazer um esforço para entender porque Jesus instituiu a Eucaristia e porque ela é radicalmente necessária para a nossa salvação. Respeitando os limites que o mistério nos impõe, vamos tentar entender o processo no qual ela se realiza.

NECESSIDADE DA EUCARISTIA

Para entendermos porque a Eucaristia é realmente necessária para a salvação, precisamos antes entender o capítulo 2 do Gênesis. Neste segundo relatório sobre a criação, a Bíblia nos fala que Deus criou o homem do barro da terra (Gn 2,7). Deus soprou no homem formado do barro da terra e o homem se tornou um ser vivente. Deus é o único que tem a vida desde sempre e para sempre: "assim como o Pai, o vivente, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim também o que me come viverá por mim"(Jo 6,57). Alguém pode pensar que Deus formou um boneco morto de barro e soprando nele o tornou fisicamente vivo. Não. Quando Deus soprou no homem, ele estava fisicamente vivo e tinha alma imortal. O que Deus soprou no homem foi a vida eterna, a qual é distinta da vida física e da alma imortal.

Somente Deus é eterno. Em Deus tudo é eterno: se Deus tiver braços e cabeça, estes serão eternos como Deus, portanto, o sopro de Deus também é eterno. Para entender, vejamos a distinção entre ETERNO e IMORTAL.

A) ETERNO

É eterno o que não tem começo nem fim. Aquilo que é eterno é incriado. Somente Deus é eterno. Em Deus tudo é eterno, também o sopro. Quando Deus sopra em Adão lhe infunde algo eterno ou seja a vida eterna. A vida eterna é colocada em Adão. Se a vida eterna foi colocada, ela pode ser tirada. "E deu ao homem este preceito: Podes comer de todas as outras árvores do jardim, mas da árvore da ciência do bem e do mal não comerás, porque

no dia em que dela comeres, morrerás ao certo"(Gn 2,16-17). Quando Deus disse MORRERÁS, Ele se referia à perda da vida eterna que tinha sido colocada no homem. Tanto assim que o homem comeu a fruta proibida, continuou fisicamente vivo, e contudo morreu, ou seja perdeu a vida eterna que Deus tinha colocado nele.

De posse da vida eterna, o homem vê e fala com Deus. Eva é tirada de Adão antes de ele perder a vida eterna; e, por isto, Eva, mesmo sem receber o sopro de Deus, possui a vida eterna. Se Adão e Eva tivessem tido um filho antes de cometer o pecado, este também teria nascido de posse da vida eterna. Antes do pecado Adão e Eva tinham os seguintes elementos:

CORPO FÍSICO

VIDA FÍSICA

ALMA IMORTAL

VIDA ETERNA

Adão e Eva cometem o pecado e continuam fisicamente vivos e com a alma imortal, mas perdem a vida eterna. Daqui se deduz que, que, quando disse a Adão MORRERÁS (Gn 2,17) se referia à perda da vida eterna e não da vida física. Após a perda da vida eterna, Adão e Eva viram Deus somente uma vez para receber o castigo (Gn 3). Se tivermos compreendido o julgamento da assembléia que se encontra em Mt 25,31-46, veremos que os condenados,

isto é aqueles que perderem a vida física sem estar de posse da vida eterna, terão um único contato com Deus, no julgamento final, para receber o castigo: "Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus anjos"(Mt 25,41). Como Adão e Eva, após o pecado, só têm alma imortal, vida física e corpo físico, todos os seus descendentes nascem somente com corpo físico, vida física e alma imortal, sem vida eterna.

B) IMORTAL

É imortal aquilo que tem começo, mas não tem fim. Tudo aquilo que é imortal é criado.

Dado que todo o ser humano nasce sem a vida eterna, nasce sem nenhum princípio incriado (eterno). O homem, ao nascer, é, portanto, uma simples criatura de Deus. É, porém, uma criatura especial, porque tem a possibilidade de se tornar filho de Deus. Jesus é o único filho de Deus conforme dizemos no CREIO, porque Ele é o único que foi gerado por Deus.

Segundo nos ensina Gênesis 2, Deus tirou da terra também as plantas e os animais, os quais eram vivos, mas neles Deus não infundiu nenhum princípio eterno, nenhum sopro, e, portanto, eles nunca se tornarão filhos de Deus. Com isto, podemos concluir que o homem, ao ser formado da terra, antes de receber o sopro de Deus, já estava fisicamente vivo, pois as plantas e os animais, tirados da terra, sem receber nenhum sopro de Deus, estavam fisicamente vivos.

"Adão viveu novecentos e trinta anos e morreu"(Gn 5,5). Adão teve duas vidas: a vida eterna e a vida física. Como teve duas vidas, Adão também passou duas vezes pela morte.

Primeira morte: ao cometer o pecado, Adão perdeu a vida eterna.

Segunda morte: com a idade de novecentos e trinta anos, Adão perdeu a vida física.

Para recuperarmos os elementos necessários para morar no paraíso, precisamos ressuscitar duas vezes. A primeira ressurreição é a recuperação da vida eterna (cf Ap. 20,5). Recebendo a Eucaristia dignamente, recuperamos a vida eterna (cf Jo 6,53-54). A segunda ressurreição é a ressurreição da carne. A primeira ressurreição se realiza no decurso da vida física e somente quem recupera a vida eterna durante esta vida entra no céu. Pela ressurreição da

carne - segunda ressurreição - passarão todos, tanto os eleitos como os condenados. Como nunca cometeu pecado, Jesus nunca perdeu a vida eterna e precisou passar somente pela segunda ressurreição - a ressurreição da carne. Jesus experimentou somente a morte física.

Sendo Deus é eterno e nunca poderia ter perdido a vida eterna. Por isto, Jesus passa somente pela ressurreição da carne.

REDENÇÃO

Jesus Cristo redime o ser humano. Para o homem voltar a ser igual ao Adão criado por Deus, antes do pecado, isto é, ter corpo físico, vida física, alma imortal e vida eterna, é preciso que se livre do pecado e recupere a vida eterna. São dois momentos distintos:

  1. Libertação do pecado (Batismo);
  2. Recuperação da vida eterna (Eucaristia).

1. LIBERTAÇÃO DO PECADO

O pecado original é eliminado pelo batismo. Os pecados pessoais, cometidos após o batismo, são eliminados pela confissão sacramental (cf Jo 20,22-24). O batismo nos torna filhos adotivos de Deus (cf Gál 4). O filho adotivo não tem a vida do pai. Se um casal adotar um filho, poderão dar-lhe amor, educação, herança... mas não a vida.

2. RECUPERAÇÃO DA VIDA ETERNA

Para conviver com Deus e falar com Ele, como Adão e Eva antes do pecado, precisamos Ter em nós a vida eterna, um princípio incriado (eterno não tem começo nem fim). A vida eterna correspondente àquele sopro que Deus infundiu em Adão, só volta para nós pela Eucaristia, conforme nos diz o Evangelho de João (cf Jo 6,53-54).

Alguém poderá dizer: Adão e Eva, de posse da vida eterna antes do pecado, viam a Deus e conversavam com Ele. Se a Eucaristia realmente devolve a vida eterna, por que eu, liberto do pecado pelo batismo e tendo recuperado a vida eterna pela Eucaristia, não vejo nem ouço a Deus sensivelmente? O Evangelho de Mateus nos diz: "Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus"(Mt 5,8). Aqui não se trata de uma pureza moral apenas, mas de um desapego total de tudo o que é material. Quem, além de ser puro moralmente,

for também totalmente desapegado de todos os afetos e apegos humanos, poderá ver Deus desde agora. Abraão viu Deus e conversou com Ele, mas ele, apesar de rico, era tão desapegado que, quando Deus lhe disse, sacrifica-me teu filho Isaac, Abraão preparou tudo, e se o anjo da contra-ordem tivesse atrasado um pouco, ele o teria matado mesmo.

Sem a vida eterna, ninguém entra no céu. Os justos de Antigo Testamento, que morreram antes de Jesus, ficaram aguardando a morte de Jesus, o qual desce à mansão dos mortos, conforme dizemos no CREIO (cf 1Pr 3,18-20), para devolver-lhes a vida eterna e possibilitar-lhes a visão e a convivência com Deus. Para nós que vivemos no Novo Testamento, segundo o Evangelho de São João, há uma única alternativa para recuperar a vida eterna, o sopro de Deus, que Adão e Eva perderam pelo pecado: comer a carne de Jesus e beber o seu sangue (Jo 6,53-54).

INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA

Jesus anuncia a Eucaristia durante a vida, conforme nos diz São João no capítulo 6 do seu Evangelho. Neste anúncio, Jesus fala claramente em comer sua carne e beber o seu sangue, tanto assim que alguns dos seus discípulos deixaram de segui-lo pois acharam duras demais tais palavras: comer a carne e beber o sangue de um homem. A lei judaica proibia beber sangue até de animais. Jesus fala em beber sangue de gente. Em vez de explicar para os seus seguidores como procederia, Jesus os deixa ir embora, dizendo que ninguém poderia ir até Ele, se não lhe fosse concedido pelo Pai (Jo 6, 59-66). Hoje não

deve ser diferente. Quem recupera a vida eterna vai morar na casa do Pai, após a morte física; quando ressuscitar, ressuscitará para morar na casa do Pai com corpo e alma. Como em nossa casa mora quem nós queremos, também na casa do Pai mora quem Ele quiser.

Quando Jesus celebra, com seus apóstolos, a última páscoa, antes de morrer, tudo fica claro. A Eucaristia é instituída durante esta refeição e o poder de Jesus fica novamente demonstrado, pois consegue fazer os apóstolos comerem sua carne e beberem seu sangue sem repugnância, porque o maior milagre feito por Jesus muda o pão e o vinho no corpo e sangue dele, sem atingir os sentidos dos apóstolos. Os apóstolos continuam a ver a sentir

pão e vinho, mas comem e bebem o corpo e o sangue de Jesus.

"Tomai, comei: isto é o meu corpo"(Mt 26,26).

"Bebei todos dele; porque isto é o meu sangue"(Mt 26,27-28).

A palavra de Jesus sempre se concretiza. Portanto, se Jesus disse: "isto é o meu corpo e isto é o meu sangue" aquele pão e aquele vinho se tornaram instantaneamente o corpo e o sangue dele, da mesma forma que se teriam tornado o corpo e o sangue de Jesus, no espaço de aproximadamente três horas, se Ele os tivesse comido e bebido. Mas os olhos dos apóstolos continuaram a ver e a sentir pão e vinho, assim como nós continuamos a ver

e a sentir pão e vinho e, por isto, comemos a carne de Jesus e bebemos o sangue sem repugnância.

Entre os que dizem acreditar em Jesus, mas negam a Eucaristia, há os que afirmam que Jesus não disse: "Isto é o meu corpo", mas isto simboliza o meu corpo, porque atribuem ao verbo ser o sentido de simbolizar. A instituição da Eucaristia é citada em quatro diferentes escritos do Novo Testamento: Mt 26,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,19-20 e 1Cor 11,21-27.

Mateus, Marcos, Lucas e Paulo confirmam que Jesus disse: "ISTO É O MEU CORPO E ISTO É O MEU SANGUE". Atribuir ao verbo SER outro sentido, ou seja, o sentido de simbolizar, corresponde a deturpar o texto.

Como foi dito no início, a palavra de Deus deve ser compreendida. Quem, em vez de compreender, a interpreta, pode atribuir-lhe um sentido diferente do verdadeiro sentido dela. Compreendê-la corresponde a captar-lhe o sentido que Deus dá à sua palavra. O Evangelho de João, no capítulo 6, liga a Eucaristia à multiplicação dos pães. E, na verdade, sem querer ultrapassar os limites que o mistério nos impõe, para compreendermos a Eucaristia, precisamos compreender a multiplicação dos pães. É estranho ver que, aqueles que aceitam a Bíblia como palavra de Deus mas negam a Eucaristia, não negam também a multiplicação dos pães. E, no entanto, a multiplicação dos pães é uma intervenção na natureza maior do que a Eucaristia, ou seja, o milagre processado na Eucaristia é mais simples do que o milagre da multiplicação dos pães. Na Eucaristia, Jesus faz instantaneamente aquilo que a natureza faz em aproximadamente três horas; na multiplicação dos pães, Jesus faz instantaneamente aquilo que a natureza faz em aproximadamente seis meses. Vejamos ambos os processos.

MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES - JO 6,1-15

O evangelho diz que havia cinco mil homens (v 10). Sem nos deter sobre o número provável de pessoas, tomemos como base cinco mil homens e suponhamos que, dadas as circunstâncias, cada um comeu meio quilo de pão e peixe. Jesus tem apenas cinco pães de cevada e dois peixes, o que representa meio quilo de comida. Se cada um comeu meio quilo, Jesus precisou de dois mil e quinhentos quilos para satisfazer somente os homens.

Se Jesus passa de meio quilo para dois mil e quinhentos quilos de comida num instante, podemos nos perguntar: após a multiplicação dos pães houve aumento de matéria no planeta? Em outras palavras, Jesus criou do nada o alimento que distribuiu, descontados os cinco pães e os dois peixes?

É evidente que Jesus, não sendo criador (Ele é redentor), não pode ter criado, mas apenas transformado. Se Jesus tivesse criado a partir do nada, teria invadido a função do Pai.

Como as pessoas da Trindade são perfeitas, uma não invade a função da outra. As obras são atribuídas ao Pai (cf 1Cor 12,6). O milagre é uma obra e, portanto, foi, na realidade, realizado pelo Pai a pedido de Jesus. Mesmo assim não houve aumento de matéria no planeta, porque o Pai usou matéria preexistente até para construir o homem, as plantas e os animais (cf Gn 2). Não faria sentido criar matéria nova para produzir o alimento que Jesus distribuiu.

Qual é então o processo empregado na multiplicação dos pães?

O Evangelho de Marcos diz: "Dizia também: No reino de Deus sucede o que sucede depois que um homem lançou a semente na terra: ele de noite dorme e de dia vigia, enquanto a semente germina e cresce sem ele saber como. Porque a terra por si mesma produz primeiro o colmo, depois a espiga, depois o trigo grado na espiga. E, quando o fruto o permite, logo lhe mete a foice, porque chegou o tempo da colheita" (Mc 4,26-29). O próprio agricultor que põe a semente na terra, conforme diz esta parábola, não sabe como, mas constata que parte do solo é transformado em fruto pela semente. Há uma transformação de ingredientes do solo em fruto, sem alterar a quantidade de matéria existente no planeta. Se um agricultor coloca no campo cem quilos de semente e colhe dez toneladas na colheita, as dez toneladas que levará para o celeiro foram tiradas do campo. Portanto, o volume de matéria no planeta continua o mesmo.

Se Jesus não criou o alimento que distribuiu, precisou transformar o solo em alimento, como faz a semente. Lembremos que, nas bodas de Caná (Jo 2,1-11), Jesus transformou o mesmo volume de água no mesmo volume de vinho. Na multiplicação dos pães, Jesus parte de uma pequena quantidade de alimento, pronto para o consumo, para mostrar que Ele não cria do nada, mas transforma. Neste caso, o milagre consiste na eliminação de um processo

da natureza, ou seja, Jesus faz, num instante, aquilo que a natureza faz em

aproximadamente seis meses. Vejamos o processo da natureza para produzir pão:

SOLO

SEMENTE (dentro do solo)

ERVA SEM ESPIGA

ERVA COM A ESPIGA

ESPIGA MADURA

COLHEITA

INDUSTRIALIZAÇÃO

PÃO

Para passar da semente para o pão, a natureza leva aproximadamente seis meses e a semente deve ser colocada dentro da terra. O pão que nós comemos, como também qualquer outro alimento, é, na realidade, terra, que, por um processo da natureza, foi transformada para se adaptar ao nosso organismo e servir de alimento. Jesus transforma instantaneamente parte do solo em pão, sem colocar nenhuma semente dentro do solo.

EUCARISTIA

O processo do milagre da Eucaristia é semelhante ao da multiplicação dos pães. Para entendê-lo, vejamos antes o processo natural em conjunto com a multiplicação dos pães:

SOLO SEMENTE (dentro da terra)

ERVA SEM ESPIGA

ERVA COM A ESPIGA

ESPIGA MADURA

COLHEITA

INDUSTRIALIZAÇÃO

PÃO

Duração deste processo aproximadamente seis meses

PÃO (dentro do estômago)

CORPO E SANGUE

Duração deste processo aproximadamente três horas Sempre que comemos pão e bebemos vinho, o pão e o vinho são transformados pelo nosso organismo em nosso corpo e nosso sangue. Sempre que Jesus, durante a duração de sua vida física, comeu pão e bebeu vinho, o organismo dele transformou o pão e o vinho em seu corpo e sangue pelo processo natural que leva mais ou menos três horas. Nem mesmo quem é ateu duvida disto. Acredito que até os cristãos que negam a Eucaristia não tenham dificuldade em admitir isto.

Como, na multiplicação dos pães, Jesus transformou parte do solo em pão, pronto para o consumo, sem colocar semente dentro da terra, por que não poderia, agora, transformar, pelo seu poder, o pão e o vinho em seu corpo e seu sangue, sem colocá-los dentro do seu próprio estômago?

Vamos imaginar como seria a Eucaristia, se Jesus tivesse resolvido realizá-la pelo processo natural:

  1. A comunidade se reúne.
  2. O padre coloca meio quilo de pão e um copo de vinho sobre o altar.
  3. Jesus aparece com seu corpo ressuscitado e come o pão e bebe o vinho.
  4. Jesus espera três horas para fazer a digestão, enquanto isso a missa segue com a prática, orações e cânticos
  5. Acabada a digestão, Jesus coloca o pé numa bacia, corta um pedaço da coxa para cada um dos presentes, deixando o sangue escorrer na bacia.
  6. Assim que cada um terminou de comer a carne de Jesus, volta e bebe um pouco de sangue, recolhendo-o da bacia.

Este processo seria indiscutivelmente mais convincente. Ninguém poria em dúvida que a Eucaristia é o corpo e o sangue de Jesus. Mas, na hora de comer a carne e beber o sangue de um homem presente e vivo, alguém poderia ter medo ou repugnância. Eu, pessoalmente, toparia, porque para recuperar a vida eterna e entrar no céu faço qualquer negócio, até comer carne e beber sangue de gente, se isto for pedido por Deus; mas será que todos teriam coragem de fazê-lo?

Vamos imaginar um processo menos chocante, mas visível, e por isto mais convincente para quem não aceita Jesus como Filho de Deus. Um pássaro que se alimenta de peixes mergulha na água e sai com um peixinho no bico. O peixinho se contorce, tentando escapar, mas acaba sendo engolido vivo. Ao ser ingerido o peixe morre e se torna carne e sangue do pássaro. Jesus tem poder para transformar cada hóstia, no momento da consagração, num homem vivo em miniatura, do tamanho de um comprimido, para que possa passar pela garganta de cada pessoa que o receber. Na hora da comunhão, todos receberiam, em suas mãos, um homem pequeníssimo - o próprio Jesus - pulando de alegria.

Será que todos os fiéis teriam coragem de engolir aquele homem vivo, sabendo que, para se tornar corpo e sangue de cada um, Ele seria morto, como o peixinho que entra vivo no bico do pássaro e é morto para se tornar corpo e sangue dele?

Alguém pode perguntar: Como Jesus pode caber inteiro com corpo, sangue, alma e divindade numa hóstia tão pequena? Todos nós um dia coubemos inteiros, com todas as características que possuímos hoje, numa quantidade de matéria bem menor que uma hóstia. No momento em que nossa mãe ficou grávida, nosso corpo era tão pequeno que só podia ser visto através de um microscópio. Quando Maria ficou grávida por obra do Espírito Santo, o corpo de Jesus era constituído de uma quantidade de matéria visível somente ao microscópio; mesmo assim, lá estava Jesus inteiro com corpo, sangue, alma e divindade, sem ficar apertado.

A missa é um sacrifício. Sacrifício implica morte. No Antigo Testamento matavam-se animais para o sacrifício. Enquanto Jesus morria na cruz, o sumo-sacerdote matava um cordeiro, no templo, durante o sacrifício vespertino. Em vez de receber o sacrifício do cordeiro imolado no Templo, o Pai recebeu o sacrifício de seu Filho Jesus imolado na cruz.

Em cada missa que for rezada Jesus morre. Não é no altar que Jesus morre, mas dentro de cada pessoa que recebe a Eucaristia. Jesus é engolido vivo e é sacrificado para se tornar carne e sangue de cada pessoa que comunga. Comendo pão e vinho não consagrados, nós os transformamos em carne e sangue nossos. Se comemos carne de frango, elementos que pertenceram ao corpo do frango passam a fazer parte do nosso corpo. O mesmo acontece

quando comemos o corpo de Jesus e bebemos o seu sangue, elementos que pertenceram ao corpo de Jesus passam a fazer parte do nosso corpo.

JESUS NÃO FICA INDIFERENTE

Como a Eucaristia é imprescindivelmente necessária para a salvação, poder-se-ia ser tentado a induzir todos a recebê-la. Mas a revelação nos pede de tomar rigorosas precauções. Jesus-salvador se torna condenação para quem o recebe em pecado.

"E por isso, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente, torna-se culpado para com o corpo e o sangue do Senhor. Examine, pois, cada um a si mesmo e, assim, coma deste pão e beba deste cálice; pois quem come e bebe sem fazer distinção de tal corpo, come e bebe a própria condenação. É por isto que, entre vós, há muitos enfermos e adoentados e um bom número faleceram" (1Cor 11,27-30).

Para entendermos porque São Paulo é tão radical em relação à Eucaristia, voltemos ao segundo e terceiro capítulos do Gênesis sobre a criação do homem e às conseqüências do pecado que destruiu o plano de Deus em relação ao homem. Através dos esquemas abaixo, procuremos visualizar as sucessivas etapas do plano da criação do homem e da sua destruição pelo pecado:

Esquema 1

(antes do sopro) Deus cria o homem. Deus é criador e Senhor do homem.

O homem tem corpo físico, vida física e alma imortal. ( Antes do sopro, o homem não tinha a vida eterna em si).

Esquema 2

( após o sopro de Deus) Deus é criador e Senhor do homem. O homem tem corpo físico, vida física, alma imortal e vida eterna (sopro de Deus). A vida eterna é incriada.

Adão vê Deus e fala com Ele.

Esquema 3

(após a criação de Eva e antes do pecado) Deus é criador e Senhor de Adão e Eva. Eva é tirada de Adão e, por isso, mesmo sem receber o sopro de Deus, ela nasce com corpo físico, vida física, alma imortal e vida eterna. Adão e Eva vêm Deus e falam com Ele.

Esquema 4

(após o pecado) Não se pode obedecer a dois senhores (cf Mt 6,24). Adão e Eva obedecem a satanás e, portanto, o senhor deles passa a ser satanás.

Deus continua sendo criador de Adão e Eva. Mas satanás se torna senhor de Adão e Eva (escravos de satanás pelo pecado).

Adão e Eva tem corpo físico, vida física e alma imortal, mas perderam a vida eterna (sopro de Deus). Deus disse a Adão: "Se comeres, morrerás" (cf Gn 2,17). Adão e Eva tinham vida física e vida eterna. A vida eterna tinha sido colocada no homem, portanto, podia ser tirada sem destruir o homem. Cometendo o pecado, Adão e Eva perderam a vida eterna, mas continuaram fisicamente vivos; esta foi a primeira morte pela qual Adão passou.

Novecentos e trinta anos depois, Adão morreu, isto é, perdeu também a vida física (cf Gn 5,5); esta foi a segunda morte pela qual Adão passou. Por isto, o ser humano que se salva passa por duas ressurreições: a recuperação da vida eterna pela Eucaristia (Jo 6,53-54) que é a primeira ressurreição (cf Ap. 20,5b). Esta primeira ressurreição pela Eucaristia acontece durante a vida física de cada pessoa. As almas das pessoas, que, ao serem surpreendidas pela morte física, estiverem de posse da vida eterna, reinarão com Cristo durante mil anos

(cf Ap. 20,4). Neste caso, mil anos não correspondem a um período de dez séculos, mas ao período que transcorre entre a primeira e a segunda vinda de Jesus. A segunda ressurreição é a ressurreição da carne que atinge a todos, bons e maus, eleitos e condenados. Jesus nunca perdeu a vida eterna (como Deus não podia, em nenhuma hipótese, perdê-la), por isto, passou somente pela ressurreição da carne. Não tendo cometido pecado, Jesus passou somente pela morte física e, por isso, precisa recuperar somente a vida física que corresponde à ressurreição da carne.

Nos quatro esquemas, Adão é sempre senhor do mundo. Quando satanás se torna senhor de Adão e Eva, se torna senhor também do mundo. Por isto, satanás, nas tentações do deserto, diz a Jesus: "Dar-te-ei todo este poderio de reinos e a sua magnificência, porque me foi entregue e eu o dou a quem quiser" (Lc 4,6). E Jesus diz em outra ocasião: "Agora tem lugar o julgamento deste mundo. Agora o príncipe deste mundo vai ser lançado fora" (Jo 12,31).

Quem está em pecado grave, está sob o senhorio de satanás ou seja é escravo de satanás.

Quando Deus soprou a vida eterna em Adão, este estava sob o senhorio de Deus (vide esquemas 1 e 2). Se alguém está em pecado mortal, deve, antes de receber a Eucaristia, voltar ao senhorio de Deus, através do sacramento da penitência. Somente assim, ele comerá e beberá dignamente o corpo e o sangue do Senhor. Caso contrário comerá e beberá a própria condenação (cf 1Cor 11,27-30).

Peca-se gravemente de muitas maneiras. Para não entrar em detalhes, lembremos apenas que todas as faltas contra os dez mandamentos de Deus e os cinco mandamentos da Igreja são pecados graves. Para cometer um pecado grave basta, por exemplo, perder a missa aos domingos (cf Catecismo da Igreja Católica, número marginal 2181). Os sofrimentos do inferno serão diferentes de uma pessoa para a outra de acordo com o volume de pecados

que cada um cometeu. O apocalipse fala que há dois livros: o livro da vida e o livro das obras. Quem passou pela primeira ressurreição, através da Eucaristia, e possuía a VIDA ETERNA no momento em que a morte física o surpreendeu tem seu nome escrito no LIVRO DA VIDA; este está salvo. Quem rejeitou a Eucaristia e perdeu a vida física, sem estar de posse da vida eterna, isto é, não passou pela primeira ressurreição, não tem seu nome escrito no LIVRO DA VIDA; este está condenado. Ambos, ELEITOS e CONDENADOS, serão classificados no CÉU e no INFERNO, conforme o que está escrito no LIVRO DAS OBRAS.

Aquele que tiver seu nome escrito no livro da vida será classificado, no céu, de acordo com o volume de obras boas que tiver feito. Aquele que não tiver seu nome escrito no livro da vida estará, no inferno, a uma temperatura tanto mais alta quanto mais graves e mais numerosos forem os pecados não perdoados, que estavam armazenados em seu coração na hora em que a morte física o surpreendeu. Se alguém recebe a Eucaristia em pecado, em vez de se salvar, apenas multiplica o pecado, merecendo um castigo mais severo na

eternidade, se não se converter e arrepender antes de morrer.

EUCARISTIA - ALIANÇA DEFINITIVA

Somente através da Eucaristia a aliança definitiva entre Deus e o homem se concretiza.

Antes do pecado, o homem tinha dentro de si um princípio incriado, eterno, o sopro de Deus. Deus era Senhor de Adão e Eva. Adão é Eva eram aliados de Deus. Com o pecado esta aliança foi desfeita. Deus, porém, desde a criação, quer ter o ser humano como seu aliado. Por isto, no Antigo Testamento, Deus faz uma aliança a nível humano, uma aliança externa, com diversos homens, depois com todo o povo. Ainda no Antigo Testamento é anunciada uma aliança nova e definitiva que se concretizou com Jesus Cristo na Eucaristia.

Vejamos o anúncio desta aliança no Antigo Testamento.

ALIANÇA COM NOÉ Gn 9,8-17

Com o dilúvio, Deus nos mostra que não adianta exterminar os maus antes do fim do mundo, pois, haverá sempre entre os bons quem se perverterá.

Joio e trigo deverão conviver até o fim dos tempos (cf Mt 13,24-30 e 36-39). Por isto Deus fez uma aliança com Noé. Sinal desta aliança: o arco-íris.

Promessa de Deus: não exterminar a vida pela água.

ALIANÇA COM ABRAÃO (Gn 15,9-21 e Gn 17,1-14)

Deus manda Abraão partir animais pelo meio (Gn 15,10). Ao escurecer um archote aceso, que representa Deus, passa entre os animais partidos. Na época, quando duas pessoas celebravam um contrato importante, partiam um animal ao meio e, passando entre as partes, pronunciavam o juramento, desejando-se a mesma sorte do animal partido ao meio, se não fossem fiéis ao juramento. Deus usou este esquema ao fazer aliança com Abraão.

Assim Abraão autoriza Deus a matá-lo se não permanecesse fiel.

Sinal da aliança com Abraão: a circuncisão.

Promessa de Deus: numerosa posteridade a Abraão e posse da terra aos descendentes.

Lembremos que esta é uma aliança de vida ou morte: vida para o fiel e morte para o infiel.

ALIANÇA COM O POVO (Ex 24,1-8)

Na pessoa de Noé e Abraão, Deus fez aliança com um indivíduo e sua família. No deserto, Deus faz aliança com todo o povo. Na aliança com Abraão, Deus prometeu aos seus descendentes a terra de Canaã. O povo judeu no deserto fazia parte da descendência de Abraão. Deus permanece fiel à sua promessa. De sua parte, o povo deve provar a sua fidelidade para com Deus, observando os dez mandamentos - código da aliança. Moisés asperge o povo com sangue de animais. A aliança é selada externamente (aspersão) e com sangue de animais.

ANÚNCIO DA ALIANÇA DEFINITIVA (Jr 31, 31-34)

Jeremias anuncia uma aliança nova e definitiva, superior àquela feita no deserto com o povo judeu. Seria uma aliança no coração que modificaria radicalmente quem tomasse parte dela. É evidente que a profecia de Jeremias se realiza na Eucaristia, pois, na Eucaristia, a aliança é feita no corpo e sangue de Jesus ( e não no sangue de animais). É uma aliança interna: o corpo e sangue de Jesus são consumidos, digeridos, e passam a fazer parte do corpo de quem os recebe. Aquele que recebe dignamente a Eucaristia tem em suas veias o

sangue do Filho de Deus.

"Tomou então o pão, deu graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em minha memória'. Depois da ceia, fez o mesmo com o cálice, dizendo: 'Este cálice é a NOVA ALIANÇA no meu sangue, que por vós é derramado'"(Lc 22,19-20).

CONFRONTO CRISTO / ANTICRISTO

Jesus falou do fim do mundo e nos revelou alguns fatos que acontecerão antes do fim dos tempos. Como a Eucaristia é protagonista de um desses fatos, recordemos alguns pontos da escatologia, sem entrar em detalhes, pois, o nosso tema central é a Eucaristia e não o fim do mundo.

O Evangelho de Mateus nos diz: "Esta boa nova do reino será pregada em todo o mundo, como testemunho a todas as gentes, e então virá o fim"(Mt 24,14).

A Carta aos Tessalonicences nos diz: "Que ninguém vos engane de qualquer modo que seja. É necessário que antes venha a defecção (apostasia) e se manifeste o homem da impiedade (anticristo), o filho da perdição, o adversário que se levanta acima de tudo o que é chamado Deus ou é objeto de veneração, ao ponto de sentar-se no templo de Deus, proclamando ser Deus ele próprio"(2 Tes 2,3-4).

Dado que estamos tratando da Eucaristia e não do fim do mundo, tomemos somente estes três pontos:

1 - O Evangelho será anunciado a todas as nações (Mt 24,14);

2 - A defecção ou apostasia (2 Tes 2,3);

3 - Confronto entre o homem da impiedade (anticristo) e Jesus Cristo (2Tes 2,4).

1 - O Evangelho será anunciado em todas as nações (Mt 24,14)

Jesus não diz que todas as nações aceitarão o Evangelho; diz apenas que a boa nova será anunciada em todas as nações. Com o descobrimento das Américas, em 1492, e com o imediato anúncio do Evangelho feito pelos missionários que acompanhavam os colonizadores, este ponto se concretizou.

2 - A defecção ou apostasia (2 Tes 2,3)

Neste ponto devemos distinguir o sentido bíblico do sentido teológico da palavra apostasia.

a) A teologia chama apóstata aquele que, tendo chegado à fé, a abandona completamente, negando tudo, inclusive a existência de Deus. Para a teologia, portanto, apostasia corresponde a passar da fé para o ateísmo.

b) Nos escritos do Novo Testamento não se conhece nenhum caso de membros das comunidades cristãs que tenham abandonado a fé e a própria crença em Deus, passando da fé para o ateísmo. O que os apóstolos citam, em seus escritos do Novo Testamento, são casos de pessoas que, apesar de crerem em Jesus Cristo, davam-se a práticas pagãs, como, por exemplo, os nicolaítas (Ap. 2,14-15), ou negavam alguma verdade revelada em relação a Jesus Cristo, como, por exemplo, os docetas que negavam a natureza humana de Jesus (2Jo 1,7).

Por isto, somos forçados a concluir que, para os apóstolos, bastava negar uma verdade revelada para ser apóstata. Enquanto a teologia chama herege quem, conservando a fé, nega uma ou mais verdades reveladas, o Novo Testamento considera este indivíduo um apóstata. Em resumo: para a teologia é apóstata quem passa da fé para o ateísmo; para o Novo Testamento é apóstata quem nega uma verdade revelada. O ateu que nasceu ateu e permaneceu sempre ateu, em nenhum dos casos pode ser considerado apóstata. No conceito do Novo Testamento, quem negar a Eucaristia é um apóstata.

3 - Confronto Jesus Cristo / Anticristo (2Tes 2,4)

Quem nega a Eucaristia é levado a supor que o confronto do anticristo com Jesus Cristo se dará no fim dos tempos quando Jesus voltar; porque, de outra forma, com quem o anticristo se confrontará? Isto é um verdadeiro absurdo. Quando Jesus voltar, ninguém se atreverá a confrontá-lo. Vejamos o que diz o Apocalipse: "Ei-lo que vem entre as nuvens e todos os olhos o verão, também os que o trespassaram, e, por causa dele, hão de se percutir o peito todas as tribos da terra"(Ap. 1,7). Ao retorno de Jesus, até o anticristo se ajoelhará,

apesar de que nada adiantará, pois o tempo da fé já terá passado.

O confronto entre o anticristo e Cristo se dará, portanto, antes do fim do mundo. Prestemos bem atenção ao que diz S. Paulo na carta aos Tessalonicenses (2Tes 2,3-4) já citado acima. "É necessário que ANTES venha a apostasia... se manifeste o anticristo... que se levanta acima de tudo o que é chamado Deus...". A palavra ANTES rege toda a frase.

Portanto, antes de fim do mundo, deve vir a apostasia, deve levantar-se o anticristo e o anticristo deve executar sua ação contra tudo o que é chamado Deus.

O anticristo se levanta contra tudo o que é chamado Deus: para nós católicos, uma hóstia consagrada é Deus; para os cristãos que não acreditam na Eucaristia, uma hóstia consagrada é um objeto que os católicos chamam Deus. O confronto entre o anticristo e Jesus Cristo terá, de um lado, o anticristo, ou seja, a pessoa que liderar os cristãos que não acreditam na Eucaristia (inclusive os católicos que não crêem na Eucaristia) e, do outro lado, a Eucaristia defendida pelos católicos que acreditam e a recebem dignamente. É muito difícil prever qual será o pretexto do confronto, mas pode ser uma tentativa de

unificação das religiões cristãs. Se os líderes da Igreja católica, futuramente, aceitarem as interpretações errôneas dos protestantes, referentes à Eucaristia, com o intuito de unificar as religiões cristãs, haverá um pequeno grupo de católicos que permanecerão fiéis à convicção que Jesus está realmente presente numa hóstia consagrada. O grupo que negará a Eucaristia, sendo maior e, humanamente falando, mais poderoso, tentará suprimir o grupo fiel à Eucaristia e nisto pode se concretizar o confronto.

O confronto entre o sumo-sacerdote e Jesus Cristo, perante o sinédrio em Jerusalém, é semelhante ao confronto entre o anticristo e Jesus Cristo antes do fim do mundo. O sumo sacerdote acreditava no Messias e aguardava a vinda do mesmo. Mas não acreditava que aquele homem (Jesus) amarrado e, aparentemente, incapaz de se defender fosse o Messias. Jesus declarou ser o Messias: "Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste. Antes vos digo que doravante vereis o Filho do Homem sentado à direita da Onipotência e vir sobre as nuvens do céu"(Mt 26,64). Jesus não fez nenhum milagre perante o sumo-sacerdote para provar que era o Messias. O sumo-sacerdote tinha somente a palavra de Jesus como argumento para crer. Se Jesus tivesse feito, perante o sinédrio, a manifestação que fez, na transfiguração, perante Pedro, Tiago e João, com Moisés e Elias conversando com Ele, é óbvio que o sumo-sacerdote teria acreditado nele.

O anticristo, no confronto com Jesus Cristo, estará na mesma situação. Terá perante si uma hóstia consagrada, aparentemente incapaz de se defender, e como único argumento para crer a palavra de Jesus "ISTO É O MEU CORPO" (cf Mt 26,26).

Porém, no confronto anticristo / Jesus Cristo, antes do fim do mundo, haverá uma reação de Jesus Cristo ( que não houve perante o sinédrio). São Paulo diz: "Então manifestar-se-á o ímpio (anticristo), que o Senhor Jesus destruirá com o sopro de sua boca e aniquilará com o esplendor de sua vinda"(2Tes 2,8). O sopro que derrubará o ímpio sairá do objeto considerado Deus, ou seja da Eucaristia, que o anticristo pretenderá destruir. A vinda de Jesus em glória, que aniquilará o anticristo, acontecerá em seguida.

No Evangelho de Mateus, Jesus previne os discípulos em relação aos fariseus e saduceus (cf Mt 16,5-12). E, no entanto, sabemos que os fariseus e saduceus professavam a fé do povo judeu, eram mais rigorosos na prática religiosa que os apóstolos, e esperavam o Messias. O erro deles era não aceitar que aquele homem, chamado Jesus, Filho de Maria, fosse o Messias. É inegável que as religiões cristãs não católicas aceitam Jesus como Messias, Filho de Deus, e esperam a volta do mesmo. Mas, negando a Eucaristia, negam Jesus já presente entre nós, assim como os fariseus e saduceus negavam que o Messias já estivesse entre eles na pessoa de Jesus. Quem vê, numa hóstia consagrada, um simples pedaço de pão, comete o mesmo erro que os fariseus e escribas que viam, em Jesus, um simples homem.

Para salvar-nos precisamos crer em Jesus: "Com efeito, Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho Unigênito para que todo aquele que crer nele não pereça, mas tenha a vida eterna"( Jo 3,16). Crer em Jesus não quer dizer apenas admitir que Ele é o Messias, o Filho de Deus, o Redentor ou o Salvador. É preciso também crer naquilo que Ele falou. Se alguém acredita que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, mas não acredita na palavra dele quando

diz: "TOMAI E COMEI; ISTO É O MEU CORPO" (Mt 26,26) não pode afirmar que acredita em Jesus. Se alguém acredita que eu sou o Padre Ângelo José Busnardo, filho de Raymundo Busnardo, mas não acredita naquilo que eu digo, não pode dizer que acredita em mim.

Assim, para alguém poder dizer que acredita em Jesus, não basta que acredite que Ele é o Messias e o Filho de Deus, precisa crer em tudo o que Ele disse; precisa crer em Jesus também quando diz: "Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia" (Jo 6,53-54).

RESSURREIÇÃO

Jesus morreu uma vez só, pois perdeu somente a vida física, e passou por uma só ressurreição, a ressurreição da carne, que é a segunda ressurreição. Jesus não precisou passar pela primeira ressurreição, porque Ele nunca perdeu a vida eterna; Ele é Deus e, como Deus, sempre foi eterno, antes da encarnação, durante a vida terrena e após a vida terrena. Nós precisamos ressuscitar duas vezes se quisermos entrar no céu.

Adão morreu duas vezes. Para voltar a ser aquilo que ele era antes do pecado, precisa ressuscitar duas vezes: "Então o Senhor Deus formou o homem com o pó da terra e lhe insuflou nas narinas um hálito de vida e, com isso, o homem tornou-se uma alma vivente"( Gn 2,7).

O homem, ao sair das mãos de Deus, possuía os seguintes elementos: Corpo Físico VIDA FÍSICA Alma imortal

VIDA ETERNA

Adão possuía, portanto, duas vidas: a vida física (criada) e a vida eterna (incriada), isto é, o sopro de Deus. "E deu ao homem este preceito: Podes comer de todas as árvores do jardim, mas da árvore da ciência do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres, morrerás ao certo" (Gn 2,16-17). Deus não diz qual vida Adão perderia se comesse do fruto proibido. Mas Adão comeu do fruto proibido, continuou fisicamente vivo,

mas morreu. Com o pecado Adão conservou a vida física, mas perdeu a vida eterna. Esta é, portanto, a primeira morte. A primeira ressurreição deve consistir na recuperação da vida eterna. Novecentos e trinta anos depois, Adão perdeu também a vida física: "Assim Adão viveu novecentos e trinta anos e morreu" (Gn 5,5). Esta é a segunda morte de Adão. Com a segunda ressurreição (ressurreição da carne), recupera-se a vida física.

PRIMEIRA RESSURREIÇÃO (Ap. 20,4-10)

A primeira ressurreição é a recuperação da vida eterna pela Eucaristia (Jo 6,53-54). Aquele que, ao morrer fisicamente, estiver de posse da vida eterna, mesmo sem corpo, reina com Cristo, no céu, até o fim do mundo. A primeira ressurreição ( recuperação da vida eterna pela Eucaristia) acontece na terra.

"Vi tronos nos quais se sentavam pessoas, às quais foi dado razão e se fez justiça, seja as ALMAS daqueles que foram decapitados por causa do testemunho que deram a Jesus e por causa da palavra de Deus, seja aqueles que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam a marca na fronte nem na mão. Viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os outros mortos não receberam a vida, até se completarem os mil anos. Está é a

primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo aquele que participa deste primeira ressurreição! Sobre esses não tem poder a segunda morte, mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com Ele durante mil anos. Terminados os mil anos, satanás será solto da prisão, e sairá para seduzir as nações que estão nos quatro cantos da terra, Gog e Mogog, a fim de reunir para a guerra, numerosos como são, quanto a areia do mar. Subiram

sobre toda a superfície do país, e rodearam o acampamento dos santos e a cidade muito amada. Mas desceu fogo enviado, do céu, por Deus, e devorou-os. O diabo, que os seduziu, foi lançado no lago de fogo e de enxofre, onde a besta e o falso profeta já se achavam, e serão atormentados dia e noite por todos os séculos" (Ap. 20,4-10).

Quando a Bíblia fala em mil anos não ser refere a um período de dez séculos, mas a um período de duração longa e indeterminada. Neste trecho, mil anos correspondem ao tempo que transcorre entre a primeira e a segunda vinda de Jesus. Quem está reinando com Cristo, entre a sua primeira vinda e a sua segunda vinda, são as ALMAS das pessoas que morrem de posse da vida eterna. Quando alguém morre de posse da vida eterna, recuperada pela recepção digna da Eucaristia, está salvo e faz parte do número dos eleitos;

se tiver pequenas imperfeições deverá purificar-se no purgatório, mas em seguida reinará com Cristo, sem corpo, até à sua segunda vinda.

Não se pode dizer que Jesus, a um dado momento, retornará ao mundo, com corpo visível, para governá-lo pessoalmente durante mil anos, porque, terminados os mil anos, satanás terá do seu lado uma multidão numerosa como as areias do mar, enquanto os santos serão um punhado de gente acampados em volta da cidade querida (Ap. 20,9). Não se pode admitir que Jesus, após ter governado o mundo durante mil anos, terá apenas um punhado

de gente do seu lado, enquanto satanás terá uma multidão numerosa como as areias do mar.

SEGUNDA RESSURREIÇÃO (1Tes 4,16-17)

A segunda ressurreição que é a ressurreição da carne (recuperação da vida física) nada tem a ver com a Eucaristia, já que todos ressuscitam, eleitos e condenados. A Segunda ressurreição se dará em duas etapas. No momento da segunda vinda de Jesus, as ALMAS que estavam reinando com Ele recuperarão os seus corpos e os eleitos que estiverem ainda neste mundo terão seus corpos transformados instantaneamente (cf 1Cor 15,51-56), e

serão arrebatados juntos com Cristo; esta e primeira etapa. Após o arrebatamento dos eleitos, descerá fogo do céu que derreterá tudo. Os condenados recuperarão seus corpos após a destruição do mundo pelo fogo para se apresentarem ao julgamento final. Não entramos em detalhes sobre a ressurreição da carne, porque esta segunda ressurreição não depende da Eucaristia, já que tanto os condenados como os eleitos passarão pela ressurreição da carne.

Pe. Ângelo José Busnardo